2020 – um ano para repensar o jornalismo esportivo no Brasil

Por Gustavo Longo e Luciano Maluly

Publicado originalmente no Ludopédio

Ficar em casa em decorrência da pandemia relacionada ao novo coronavírus (COVID-19) é um desafio também para repensarmos a massificação do esporte como um dos carros-chefes nos meios de comunicação.

A preocupação com os megaeventos, especialmente em torno da gestão esportiva, parece que perdeu o sentido em 2020. Falar sobre investimentos (envolvendo atletas, treinadores ou clubes) para divulgar as competições tornou-se uma pauta secundária. Afinal, precisamos refletir sobre a sobrevivência de milhares de pessoas que estão expostas à doença, ao desemprego e, consequentemente, à fome.

Por isso, o jornalismo passou a contar com a iniciativa de colaboradores e profissionais que colocaram o espaço destinado ao “esporte” no seu devido lugar. Em vez do excesso de torneios e das infinitas mesas-redondas, agora ocupamos nosso tempo com notícias e especiais sobre atividades físicas e práticas esportivas, com ênfase na saúde e na educação. Vários vídeos estão sendo postados por comunicadores, atletas e professores de educação física, com o objetivo de auxiliar a população a melhorar sua condição física e mental.

Além disso, duelos históricos, recheados de jogadas inesquecíveis, como das seleções brasileiras de futebol masculino de 1958, 1962, 1970 e 1982, bem como do Santos de Pelé, do São Paulo de Telê Santana, do escrete feminino comandado por Marta, entre outros episódios de gala dos diversos esportes, como as conquistas mundiais e olímpicas, ganharam as manchetes na mídia brasileira.

A filosofia do futebol-arte (que sempre defendemos) revela, neste momento, a ideia de que a beleza do esporte, independentemente da modalidade, está ligada ao ser humano por meio da criatividade e do bem-estar. Assim, o conceito de olimpismo ganha espaço, ainda que timidamente, na agenda da cobertura esportiva quando as pautas equilibram esforço, bons exemplos, responsabilidade social e respeito aos princípios éticos fundamentais.

O jornalismo esportivo demorou a perceber a mudança de comportamento não só do público, mas também das fontes, especialmente os atletas e preparadores físicos. No início da pandemia, o vazio deixado pela suspensão e cancelamento de eventos esportivos em todo mundo fez os profissionais ficarem perdidos sobre o que abordar. Acostumados com a rotina incessante de treinos e jogos durante a semana, aliada à crescente espetacularização em torno dos principais personagens, os jornalistas ainda tentavam repercutir os efeitos dessa parada no dia a dia de clubes e atletas, mesmo sem um consenso sobre como a doença avançava e o seu verdadeiro impacto no mundo esportivo.

Dois fatos foram fundamentais para promover essa inflexão na cobertura. O primeiro deles ocorreu em 24 de março, quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) e o governo japonês anunciaram o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020 para 2021. Tal medida provocou uma reação em cadeia na prática jornalística. Era preciso entender não só as causas que levaram a uma atitude extrema e histórica (apenas a Primeira e a Segunda Guerra Mundial impediram a realização dos Jogos Olímpicos em suas datas normais), mas também ampliar o debate. Questionamentos importantes começaram a ser feitos nos meios de comunicação: como fica o calendário esportivo nos próximos anos? Qual o impacto desta mudança na saúde e na preparação dos atletas? Quais medidas um evento esportivo precisa adotar para não propagar uma doença altamente contagiosa?

O segundo foi operacional. Com a baixa demanda na editoria de Esportes, muitos jornalistas foram deslocados a outras áreas para auxiliar na cobertura da pandemia. Com os pés nas ruas, puderam ampliar suas visões e descobrir um novo mundo de pautas que também impactam a rotina esportiva. Discussões como vida saudável, equilíbrio entre corpo e mente e até mesmo mobilidade urbana estão diretamente relacionadas à forma como o esporte é estruturado e compreendido pelos meios de comunicação. Uma experiência que, no fim, foi benéfica para todos.

Pautas e formatos que antes eram ignorados entraram na agenda dos periódicos esportivos. Com apoio de atletas e das redes sociais digitais, emissoras de televisão compartilhavam dicas de treinamentos para aliviar o estresse provocado pelo isolamento social. Perfis, entrevistas e longas reportagens voltaram a figurar nos principais portais jornalísticos do país, retratando histórias que provavelmente seriam ignoradas em uma rotina comum e modalidades que, anteriormente, não encontravam espaço no dia a dia.

O retorno das competições esportivas (mesmo com o crescente aumento no número de infectados e de mortos pela COVID-19) é um desafio e tanto a esta nova realidade do jornalismo esportivo nacional. É possível voltar à “vida normal” de treinos e jogos, com as mesmas pautas surradas em torno do resultado e da vida privada dos atletas? Esse período não foi suficiente para compreender que o esporte ultrapassa as dimensões do campo de jogo e possui valores universais, passando pelo pedagógico, o social, o cultural, o ambiental, entre tantos outros fundamentos que norteiam e orientam os cidadãos?

Resta, agora, saber qual é o caminho que o jornalismo esportivo pretende seguir daqui para frente: o retorno à cobertura treino-jogo-resultado ou a ampliação da pauta, envolvendo todos os aspectos inerentes a este fenômeno? Pela primeira vez em muito tempo, os profissionais de comunicação têm, obrigatoriamente, a oportunidade de repensarem o papel que exercem na estrutura esportiva. Com uma pandemia que modificou o nosso cotidiano, está evidente que a visão do esporte não pode mais ficar restrita aos eventos transmitidos. Da sensação de vitória quando um objetivo pessoal ou profissional é alcançado à torcida por dias melhores no futuro, o conceito de esporte está presente na maioria dos acontecimentos diários e, por isso, os periódicos especializados necessitam de outras linhas editoriais.

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP

Luciano Maluly é professor de Jornalismo na Universidade de São Paulo. E-mail: lumaluly@usp.br