Até onde a autoficção alcança?
por Teresa Perrotti
Quando eu tinha 13 anos, um dia eu cheguei em casa depois da escola e decidi que eu não iria almoçar. Não porque eu não estava com fome, mas porque quis testar como seria sentir fome por várias horas, fazer jejum, quem sabe parecer um pouco mais magra. Eu não me achava gorda, mas que mal faria parecer um pouco menor, só aquele dia? Essa memória é minha, mas poderia também fazer parte da dramaturgia de Borboletas, assim como das lembranças de qualquer mulher que já viveu em um mundo neoliberal.
Em Borboletas, o público é convidado a navegar nas memórias de Triz, a performer, dramaturga e idealizadora do espetáculo, que são narradas em meio a um programa performático de diversas ações físicas e interações com os elementos da cena. Ao adentrar o espaço cênico, as diferentes materialidades presentes no palco/plateia geram um estranhamento no espectador, ao mesmo tempo que dão uma pista de qual é o conteúdo dessas memórias iremos ouvir posteriormente. O ambiente é composto por uma grande estrutura horizontal de portas de correr, feitas de material plástico que refletem o que está na frente ou que deixam ver o que está atrás, formando uma barreira translúcida da cena atrás ou abrindo completamente para que se possa ver nítidamente o que acontece depois da estrutura. A performer brinca com as possibilidades que a estrutura oferece, enquanto utiliza das outras materialidades da cena, como uma privada, esteira de correr, escova de dente, espelho de mão e fita durex, para construir a narrativa que fica cada vez mais intensa e mais complexa, ao ponto que vamos conhecendo mais sobre as experiências de Triz com a anorexia.
Todas essas partículas do espetáculo ajudam a construir um relato sobre 22 anos de uma vida com um transtorno alimentar. A peça é intrinsecamente autoficção e bastante autoanalítica também, abordando a temática a partir das experiências e vivências da performer, que constantemente reflete sobre como essas experiências influenciaram sua trajetória. A performer também coloca em debate seus pensamentos e ações, possuindo muitas vezes um olhar julgador em relação a si mesma e a como o transtorno afeta sua vida e suas relações, chegando até a construir uma análise moral de sua conduta.
Apesar de existir essas reflexões no espetáculo, uma questão aparece após assistir a peça: a autoficção se basta por si só ou é necessário uma relação mais concreta com o contexto social e cultural em que está inserida para provocar questionamento ou incômodo genuíno no espectador? É evidente que a temática de transtornos alimentares e de autoimagem são um fruto direto da sociedade capitalista e patriarcal que vivemos, entretanto pode ser interessante que esse apontamento seja mais evidente para que a autoficção alcance a potência transformadora que pode ter e não se torne apenas uma narrativa pessoal, que gera questionamento e muitas vezes uma identificação que sem esse direcionamento pode ser problemática e bastante prejudicial.
O que fazer após comer uma maçã?
por Pedro Matos
a maçã. o pecado original. uma mulher segura o pecado original numa bandeja, expondo ao público presente. entramos no espaço ao som de “Material Girl” e ao sentarmos, a mesma mulher come o pecado original e se força a vomitá-lo. seguimos a noite acompanhando a performer atravessar imagens sobre sua relação com transtornos alimentares, acompanhada de programas performativos que intensificam o discurso. imagens porque a imagem é uma coisa só, aquilo que é e se mostra a quem vê. não parece existir tanto espaço de discussão perante uma imagem porque ela tende a ser apenas o que objetivamente é, a se apresentar como algo que já está dado (assim como a ação nua e crua da atitude performativa). o espaço de discussão surge com o discurso associado à imagem, aí essas duas esferas de pensamento se colocam em conflito. talvez, hoje, carregar uma imagem de experiência seja inevitavelmente carregar uma história da violência, como no caso de “Borboletas” em que a exposição, de cunho autoficcional da performer, remonta, nas mentes de quem assiste, as consequências de uma sociedade inerentemente misógina no que toca a relação de uma mulher com a imagem que tem de si mesma.
talvez o ponto alto da noite se dê enquanto a performer discorre sobre ser “a pior pessoa do mundo” e como “greve de fome me faz a melhor pessoa do mundo” e faz dela “Deus”. a elevada autoconsciência de como se relaciona com o problema automaticamente desloca o espectador a um outro grau de relação com aquele material. nós, que assistimos e somos o cerne do aspecto relacional no ato performativo, nos encontramos com o problema exposto pela performer e, pela própria estrutura na qual nos colocamos, a caixa cênica e uma divisão entre palco/plateia (ainda que desestruturada brevemente no início e com as interações com o público), talvez estejamos muito acomodados. a problemática se dá ali, a minha frente, mas com aquela pessoa que fala, não chega perto de mim e não tenho agência (e talvez nem opinião) frente a isso. nesse sentido, as ações perfomativas podem radicalizar a estrutura ao materializarem de certa forma o discurso, ao mesmo tempo que também podem se manter no campo do “choque” ao espectador (nesse caso, aquele espectador que consegue enxergar a ação visto que alguns, pela estrutura do espaço, não tiveram visão plena dos acontecimentos).
questiono aqui como, no campo da autoficção performativa, carregar a experiência de valor público de modo que o espectador tenha um pouco mais de presença nisso, que o ato próprio de expectação também seja, em algum grau, performativo. talvez esse espaço em que se apresenta o trabalho, a sala multiúso do Centro Maria Antônia não seja o ideal para responder a essa questão. também, o próprio ato de manter o espectador como alguém que apenas expecta o que acontece à sua frente, e nesse ato se defronta com a sua ação como uma de manutenção daquele sistema tem sua potência cênica. mas e quando a pessoa que expecta também se vê pertencente daquele discurso, dessa vez do lado da performer? e quando a pessoa espectadora se vê mais dentro da situação do que fora? se não fica evidente, me pergunto como fica a mente da pessoa que também sofre de transtornos alimentares e questões de auto imagem ao se deflagrar com esse espetáculo, e o quanto as outras vivências sociais envolvidas nisso não alteram a leitura do trabalho.
será possível uma proposta autoficcional ter mais algum grau de coletividade?