Mário Negreiro
Texto: Anderson Negreiro / Direção: Anderson Negreiro / Vídeo/Cenários: Vic Von Poser / Provocação dramaturgica: Jé Oliveira e direção / Atuação: Anderson Negreiro / Elenco projetado em imagens: Sandra Corveloni e Ismar Smith / Voz off: Jé Oliveira / Trilha sonora: Gabriel Moreira / Criação de Luz: Renato Banti / Figurinos: Éder Lopes / Consultoria de movimento: Débora Veneziani / Operação de luz: Renato Banti / Operação de som e vídeos projeções: Tomé de Sousa / Fotografia: Marcelle Cerrutti e Giorgio D Onofrio / Arte Gráfica: Mau Machado
Em Mário Negreiro, a busca por uma identidade cultural brasileira – tendo por interlocutor o multifacetado artista Mário de Andrade – é pano de fundo para que o ator Anderson Negreiro traga à cena um debate sobre racismo estrutural e resgate de apagamentos históricos. A montagem estreou em setembro de 20 é a primeira direção de Anderson Negreiro na Estelar de Teatro, companhia onde atua há 14 anos.
No palco, Anderson Negreiro, que além de atuar, assina texto e direção, ressalta um Mário de Andrade que se distancia das ideias do colonizador e se aproxima do interior do Brasil projetado nas periferias paulistanas. O ator “reencontrou” Mário de Andrade quando deu vida ao modernista no documentário 22 em XXI, de Helio Goldsztejn. “Nas filmagens tive contato com novas ideias dele e reli a sua obra clássica, Macunaíma. O livro permeia todo o espetáculo”, conta Anderson. Compõem as camadas da montagem o próprio artista e Macunaíma e Mário de Andrade e o teatro paulista contemporâneo, que entram em diálogo com uma série de imagens projetadas.
A peça começa com Anderson no bairro paulistano da Casa Verde Alta, local onde viveu e cresceu. Ele precisa entregar um exemplar de Macunaíma para seus amigos de infância, mas perde o livro no caminho. A partir daí, percorre vários locais da cidade de São Paulo à procura da obra. O ator então regressa até 25 de fevereiro de 1945, dia do falecimento de Mário de Andrade. Nesta data, através de um ritual, invoca-se a figura do modernista, mas algo dá errado e o que surge é uma figura folclórica de nome Mário Negreiro que transita entre a vanguarda e a cultura popular, bem como entre os tempos.
“O público então acompanha uma viagem contrária ao do personagem/anti-herói Macunaíma: se Macunaíma vai da floresta à cidade, Mário Negreiro vai da cidade à floresta/periferia, num rastro de apagamentos. Artista e obra e realidade e ficção se encontram”, explica Anderson.
Contemplada pelo Prêmio Zé Renato de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a montagem integra a Trilogia Modernista, que já contou com a encenação de Tarsila ou a Vacina Antropofágica, de Viviane Dias (indicada ao Prêmio Shell de Teatro na categoria Dramaturgia) e com a estreia, no fim de 2023, de O Futuro é Ancestral – Um Rito Carteado Antropofágico.
No espetáculo, Macunaíma, inexaurível, será ainda fonte de inspiração, especialmente em sua linguagem e nas maneiras como Mário trata dos inúmeros problemas do Brasil advindos da colonização – relacionando tanto a importação de modelos socioeconômicos com a submissão cultural e desconhecimento do Brasil profundo.
“Nos falta (ainda) um caráter nacional? Buscamos, como outras peças do projeto, a ideia do diálogo e a cultura da viagem (o encontro com o outro) como tema e linguagem. Nossa ideia é menos nos focarmos na perspectiva de um Mario de Andrade erudito (e embranquecido) e mais uma conversa entre mim, artista, preto, hoje, em busca de resgate de apagamentos históricos e o modernista Mário”, destaca o autor e diretor.

Anderson Negreiro é graduado pelo curso de Comunicação das Artes do Corpo, em Teatro e Dança pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP). Participou de vários oficinas e workshops no Brasil e em países como Alemanha, Itália, México, Chile, Colômbia, e de cursos com Eugênio Barba e Jan Ferslev do Odin Teatret na Dinamarca e Parvathy Baul da Índia. Integrante há 14 anos da companhia Estelar de Teatro, destacam-se dentre os espetáculos em que atuou O Minuto Depois (2011), direção de Adriana Azenha; O Longo Caminho que vai de Zero a N (2013), de Wanderley Damaceno; A Gente Submersa e O Santo Dialético (2017), de Marcelo Marcus Fonseca; O Beijo no Asfalto (2019), de Bruno Perillo e Elevador Social (2022), de Danilo Moraes, além das montagens Matriarcado-América! No se puede descolonziar sin despatriarcalizar; Matriarcado de Pindorama; Invasores de Sistemas, Frida Kahlo – Calor e Frio e Caim.
Serviço
Mário Negreiro | 15 de maio a 01 de junho de 2025
Quinta a sábado, 20h30; domingos, 18h
TUSP – Rua Maria Antônia, 294
75 minutos | 14 anos | 98 lugares | gratuito