{"id":10131,"date":"2026-04-23T10:21:56","date_gmt":"2026-04-23T13:21:56","guid":{"rendered":"https:\/\/usp.br\/tusp\/?p=10131"},"modified":"2026-05-13T17:43:08","modified_gmt":"2026-05-13T20:43:08","slug":"borboletas-criticas-mostra-predio-7-cacead","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/usp.br\/tusp\/borboletas-criticas-mostra-predio-7-cacead\/","title":{"rendered":"&#8220;Borboletas&#8221; | Cr\u00edticas | Mostra Pr\u00e9dio 7: CAC+EAD"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>At\u00e9 onde a autofic\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a?<\/strong><\/em><br \/>\npor <strong>Teresa Perrotti<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu tinha 13 anos, um dia eu cheguei em casa depois da escola e decidi que eu n\u00e3o iria almo\u00e7ar. N\u00e3o porque eu n\u00e3o estava com fome, mas porque quis testar como seria sentir fome por v\u00e1rias horas, fazer jejum, quem sabe parecer um pouco mais magra. Eu n\u00e3o me achava gorda, mas que mal faria parecer um pouco menor, s\u00f3 aquele dia? Essa mem\u00f3ria \u00e9 minha, mas poderia tamb\u00e9m fazer parte da dramaturgia de <em>Borboletas<\/em>, assim como das lembran\u00e7as de qualquer mulher que j\u00e1 viveu em um mundo neoliberal.<\/p>\n<p>Em <em>Borboletas<\/em>, o p\u00fablico \u00e9 convidado a navegar nas mem\u00f3rias de Triz, a performer, dramaturga e idealizadora do espet\u00e1culo, que s\u00e3o narradas em meio a um programa perform\u00e1tico de diversas a\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e intera\u00e7\u00f5es com os elementos da cena. Ao adentrar o espa\u00e7o c\u00eanico, as diferentes materialidades presentes no palco\/plateia geram um estranhamento no espectador, ao mesmo tempo que d\u00e3o uma pista de qual \u00e9 o conte\u00fado dessas mem\u00f3rias iremos ouvir posteriormente. O ambiente \u00e9 composto por uma grande estrutura horizontal de portas de correr, feitas de material pl\u00e1stico que refletem o que est\u00e1 na frente ou que deixam ver o que est\u00e1 atr\u00e1s, formando uma barreira transl\u00facida da cena atr\u00e1s ou abrindo completamente para que se possa ver n\u00edtidamente o que acontece depois da estrutura. A performer brinca com as possibilidades que a estrutura oferece, enquanto utiliza das outras materialidades da cena, como uma privada, esteira de correr, escova de dente, espelho de m\u00e3o e fita durex, para construir a narrativa que fica cada vez mais intensa e mais complexa, ao ponto que vamos conhecendo mais sobre as experi\u00eancias de Triz com a anorexia.<\/p>\n<p>Todas essas part\u00edculas do espet\u00e1culo ajudam a construir um relato sobre 22 anos de uma vida com um transtorno alimentar. A pe\u00e7a \u00e9 intrinsecamente autofic\u00e7\u00e3o e bastante autoanal\u00edtica tamb\u00e9m, abordando a tem\u00e1tica a partir das experi\u00eancias e viv\u00eancias da performer, que constantemente reflete sobre como essas experi\u00eancias influenciaram sua trajet\u00f3ria. A performer tamb\u00e9m coloca em debate seus pensamentos e a\u00e7\u00f5es, possuindo muitas vezes um olhar julgador em rela\u00e7\u00e3o a si mesma e a como o transtorno afeta sua vida e suas rela\u00e7\u00f5es, chegando at\u00e9 a construir uma an\u00e1lise moral de sua conduta.<\/p>\n<p>Apesar de existir essas reflex\u00f5es no espet\u00e1culo, uma quest\u00e3o aparece ap\u00f3s assistir a pe\u00e7a: a autofic\u00e7\u00e3o se basta por si s\u00f3 ou \u00e9 necess\u00e1rio uma rela\u00e7\u00e3o mais concreta com o contexto social e cultural em que est\u00e1 inserida para provocar questionamento ou inc\u00f4modo genu\u00edno no espectador? \u00c9 evidente que a tem\u00e1tica de transtornos alimentares e de autoimagem s\u00e3o um fruto direto da sociedade capitalista e patriarcal que vivemos, entretanto pode ser interessante que esse apontamento seja mais evidente para que a autofic\u00e7\u00e3o alcance a pot\u00eancia transformadora que pode ter e n\u00e3o se torne apenas uma narrativa pessoal, que gera questionamento e muitas vezes uma identifica\u00e7\u00e3o que sem esse direcionamento pode ser problem\u00e1tica e bastante prejudicial.<\/p>\n<hr style=\"border: 0; height: 1px; background: #ccc; margin: 10px auto; max-width: 850px;\" \/>\n<p><em><span style=\"font-weight: 900;\">O que fazer ap\u00f3s comer uma ma\u00e7\u00e3?\u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">por <strong>Pedro Matos<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">a ma\u00e7\u00e3. o pecado original. uma mulher segura o pecado original numa bandeja, expondo ao p\u00fablico presente. entramos no espa\u00e7o ao som de \u201cMaterial Girl\u201d e ao sentarmos, a mesma mulher come o pecado original e se for\u00e7a a vomit\u00e1-lo. seguimos a noite acompanhando a performer atravessar imagens sobre sua rela\u00e7\u00e3o com transtornos alimentares, acompanhada de programas performativos que intensificam o discurso. imagens porque a imagem \u00e9 uma coisa s\u00f3, aquilo que \u00e9 e se mostra a quem v\u00ea. n\u00e3o parece existir tanto\u00a0 espa\u00e7o de discuss\u00e3o perante uma imagem porque ela tende\u00a0 a ser apenas o que objetivamente\u00a0 \u00e9, a se apresentar como algo que j\u00e1 est\u00e1 dado\u00a0 (assim como a a\u00e7\u00e3o nua e crua da atitude performativa). o espa\u00e7o de discuss\u00e3o surge com o discurso associado \u00e0 imagem, a\u00ed essas duas esferas de pensamento se colocam em conflito. talvez, hoje, carregar uma imagem de experi\u00eancia seja inevitavelmente carregar uma hist\u00f3ria da viol\u00eancia,\u00a0 como no caso de \u201cBorboletas\u201d em que a exposi\u00e7\u00e3o, de cunho autoficcional da performer, remonta, nas mentes de quem assiste, as consequ\u00eancias de uma sociedade inerentemente mis\u00f3gina no que toca a rela\u00e7\u00e3o de uma mulher com a imagem que tem de si mesma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">talvez o ponto alto da noite se d\u00ea enquanto a performer discorre sobre ser \u201ca pior pessoa do mundo\u201d e como \u201cgreve de fome me faz a melhor pessoa do mundo\u201d e faz dela \u201cDeus\u201d. a elevada autoconsci\u00eancia de como se relaciona com o problema automaticamente desloca o espectador a um outro grau de rela\u00e7\u00e3o com aquele material. n\u00f3s, que assistimos e somos o cerne do aspecto relacional no ato performativo, nos encontramos com o problema exposto pela performer e, pela pr\u00f3pria estrutura na qual nos colocamos, a caixa c\u00eanica e uma divis\u00e3o entre palco\/plateia (ainda que desestruturada brevemente no in\u00edcio e com as intera\u00e7\u00f5es com o p\u00fablico), talvez estejamos muito acomodados. a problem\u00e1tica se d\u00e1 ali, a minha frente, mas com aquela pessoa que fala, n\u00e3o chega perto de mim e n\u00e3o tenho ag\u00eancia (e talvez nem opini\u00e3o) frente a isso. nesse sentido, as a\u00e7\u00f5es perfomativas podem radicalizar a estrutura ao materializarem de certa forma o discurso, ao mesmo tempo que tamb\u00e9m podem se manter no campo do \u201cchoque\u201d ao espectador (nesse caso, aquele espectador que consegue enxergar a a\u00e7\u00e3o visto que alguns, pela estrutura do espa\u00e7o, n\u00e3o tiveram vis\u00e3o plena dos acontecimentos).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">questiono aqui como, no campo da autofic\u00e7\u00e3o performativa, carregar a experi\u00eancia de valor p\u00fablico de modo que o espectador tenha um pouco mais de presen\u00e7a nisso, que o ato pr\u00f3prio de expecta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m seja, em algum grau, performativo. talvez esse espa\u00e7o em que se apresenta o trabalho, a sala multi\u00faso do Centro Maria Ant\u00f4nia n\u00e3o seja o ideal para responder a essa quest\u00e3o.\u00a0 tamb\u00e9m, o pr\u00f3prio ato de manter o espectador como algu\u00e9m que apenas expecta o que acontece \u00e0 sua frente, e nesse ato se defronta com a sua a\u00e7\u00e3o como uma de manuten\u00e7\u00e3o daquele sistema tem sua pot\u00eancia c\u00eanica. mas e quando a pessoa que expecta tamb\u00e9m se v\u00ea pertencente daquele discurso, dessa vez do lado da performer? e quando a pessoa espectadora se v\u00ea mais dentro da situa\u00e7\u00e3o do que fora? se n\u00e3o fica evidente, me pergunto como fica a mente da pessoa que tamb\u00e9m sofre de transtornos alimentares e quest\u00f5es de auto imagem ao se deflagrar com esse espet\u00e1culo, e o quanto as outras viv\u00eancias sociais envolvidas nisso n\u00e3o alteram a leitura do trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">ser\u00e1 poss\u00edvel uma proposta autoficcional ter mais algum grau de coletividade?<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira as cr\u00edticas do espet\u00e1culo \u201cBorboletas\u201d, escritas por Teresa Perrotti e Pedro Matos no contexto da Mostra Pr\u00e9dio 7: CAC+EAD, realizada no TUSP entre 20 de mar\u00e7o e 19 de abril de 2026. <a class=\"read-more\" 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