{"id":236,"date":"2010-02-01T13:20:00","date_gmt":"2010-02-01T13:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/oibe.com.br\/projetos\/wordpress\/?p=52"},"modified":"2026-05-06T12:40:53","modified_gmt":"2026-05-06T15:40:53","slug":"52-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/usp.br\/tusp\/52-2\/","title":{"rendered":"Cartas para algu\u00e9m? \u2013 Paloma Franca Amorim"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_8rGYhes7_Lc\/S2bXuizarsI\/AAAAAAAAAJ8\/Z5FtQF6xuFE\/s1600-h\/ru%C3%ADdo.jpeg\"><img decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5433267195085500098\" style=\"display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: hand; width: 230px; height: 175px;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_8rGYhes7_Lc\/S2bXuizarsI\/AAAAAAAAAJ8\/Z5FtQF6xuFE\/s320\/ru%C3%ADdo.jpeg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: large;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #cc0000;\">Cartas para algu\u00e9m?<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: large;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #cc0000;\">\u00a0<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: large;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #cc0000;\">\u00a0<\/span><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #cc0000;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Quem vive a intermin\u00e1vel monotonia sente-se incapaz de mover-se. Esta id\u00e9ia, dentre outras tantas, Anton Tch\u00e9khov nos ofereceu com suas obras, o inverno \u00e9 a imin\u00eancia de um porvir que n\u00e3o chega nunca. Monotonia. Tons \u00fanicos, acinzentados.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E quem assiste \u00e0 monotonia, o que sente?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s espectadores, no calor de nossos invernos, se nos sentimos desconfort\u00e1veis, o que nos resta? O movimento de nossos corpos sobre o estofado da cadeira? O suspiro impaciente? O bocejo?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7o este texto falando sobre a sensa\u00e7\u00e3o de monotonia ao assistir ao espet\u00e1culo O Ru\u00eddo Branco da Palavra Noite da companhia Auto-Retrato sentada numa poltrona \u00e0 frente de algu\u00e9m que certamente sentiu-se bastante incomodado com a situa\u00e7\u00e3o que envolveu o espet\u00e1culo naquela noite. N\u00e3o sei se era um homem ou uma mulher, se era velho ou crian\u00e7a, mas estava l\u00e1 e de quando em quando exprimia o seu desconforto diante das cenas. Um desconforto em rela\u00e7\u00e3o ao tempo prolongado da pe\u00e7a, ao ritmo das cartas recitadas, \u00e0 simplicidade quase sentimental do corpo dos atores jogando com a fic\u00e7\u00e3o, a realidade presente e a realidade passada. Os sons que este algu\u00e9m propagava no quase sil\u00eancio no teatro me fez recordar de uma das frases encontradas numa carta de Tch\u00e9khov sobre o coachar dos sapos em cena; segundo Tch\u00e9khov o barulho molhado dos sapos em meio ao vazio de sons trazia com precis\u00e3o o sil\u00eancio para a cena, um sil\u00eancio puro, inteiro. Ouvir a ansiedade do algu\u00e9m sentado na fileira de tr\u00e1s foi como ouvir sapos, e aqui n\u00e3o julgo os sapos como criaturas terr\u00edveis, n\u00e3o me senti desrespeitada em nenhum momento \u2013 acho important\u00edssimo lembrar desta experi\u00eancia com os anf\u00edbios para apresentar aqui uma problematiza\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O espet\u00e1culo apresenta o cruzamento de palavras escritas em cartas e de palavras escritas dramaturgicamente no final do s\u00e9culo IXX por artistas do Teatro de Arte de Moscou; a partir de v\u00e1rias correspond\u00eancias dos artistas do Teatro e fragmentos de pe\u00e7as de Tch\u00e9ckhov (mais especificamente as quatro encenadas no Teatro de Arte de Moscou enquanto o dramaturgo ainda estava vivo: Tio V\u00e2nia, As Tr\u00eas Irm\u00e3s, O Jardim das Cerejeiras e A Gaivota) os atores tra\u00e7am o percurso das inquieta\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios artistas em rela\u00e7\u00e3o aos seus processos criativos. N\u00e3o existe em cena, entretanto, a personifica\u00e7\u00e3o de Stanisl\u00e1vsky, D\u00e2ntchenko, Meyerhold, Olga Knipper ou Tch\u00e9khov, existe o discurso de todos, a declara\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e interpessoal sobre os pesares e os prazeres do of\u00edcio teatral.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Neste contexto a companhia Auto-Retrato encontrou a possibilidade de aprofundar uma pesquisa acerca do depoimento pessoal j\u00e1 desenvolvida nos primeiros trabalhos do grupo. Atrav\u00e9s da fala de conhecidos nomes do teatro russo, o grupo apresenta sua vis\u00e3o sobre a carpintaria c\u00eanica, de modo a conectar o passado e o presente num ponto de encontro que deveria ser fundamental em todos os processos teatrais: a mat\u00e9ria humana. Sob este ponto de vista o grupo apresenta um v\u00ednculo processual muito maduro com as obras escolhidas apresentando inclusive um ponto de vista que vai para al\u00e9m do naturalismo previsto na dramaturgia Tchekhoviana, compondo a cena com v\u00e1rias imagens metaf\u00f3ricas (tais como a fibra \u00f3ptica transformada em \u00e1rvores na cena do texto O Jardim das Cerejeiras e a interven\u00e7\u00e3o de uma professora autorit\u00e1ria de interpreta\u00e7\u00e3o na confiss\u00e3o aflita de Nina, a frustrada aspirante a atriz do texto A Gaivota), entretanto, durante o espet\u00e1culo s\u00e3o poucas as vezes que o espectador consegue atingir di\u00e1logo com esta liga\u00e7\u00e3o. A pergunta \u00e9: ser\u00e1 que o espectador n\u00e3o iniciado na hist\u00f3ria do teatro e em suas teias de contextualiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, po\u00e9tica, te\u00f3rica, consegue estabelecer uma conversa com aquilo que se vivencia em cena? A beleza da escrita de refer\u00eancias teatrais russas d\u00e1 conta da experi\u00eancia do espectador?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O processo c\u00eanico da constru\u00e7\u00e3o de um pensamento est\u00e1 posto em cena. A inconclus\u00e3o do pensamento art\u00edstico, as d\u00favidas que o rodeiam antes da finaliza\u00e7\u00e3o. As d\u00favidas que florescem em meio ao caos das id\u00e9ias e oferecem novos mundos a serem revelados, mas qual a reverbera\u00e7\u00e3o deles na presentifica\u00e7\u00e3o teatral em O Ru\u00eddo Branco da Palavra Noite?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Os casacos pesados sobre os atores nos fazem adentrar a atmosfera do inverno russo ou nos causam uma imensa agonia? N\u00f3s que somos e existimos em meio ao calor dos tr\u00f3picos. Esta quest\u00e3o n\u00e3o se encerra nas op\u00e7\u00f5es c\u00eanicas do grupo, ela diz respeito a algo maior que deve ser pensado: a pot\u00eancia de interpreta\u00e7\u00e3o que o p\u00fablico tem da obra \u00e9 composta por diversos tons que n\u00e3o s\u00e3o apenas acr\u00e9scimos transversais de leitura do espet\u00e1culo, a interpreta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico \u00e9 feita de camadas descortinando a obra, colocando-a num espa\u00e7o de di\u00e1logo com a realidade individual e a realidade coletiva presentes. Neste sentido as palavras que pulsam em cena parecem n\u00e3o bastar, muito pelo contr\u00e1rio, em poucos momentos elas oferecem ao espectador lacunas ou mist\u00e9rios a serem desvendados; as cartas e as pe\u00e7as tornam-se uma esp\u00e9cie de manifesto de amor ao teatro, a exclama\u00e7\u00e3o dos atores sobre o pr\u00f3prio of\u00edcio, diante de uma plat\u00e9ia cujas interroga\u00e7\u00f5es ficam sem desdobramentos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">E eu aqui, diante de minhas cartas invis\u00edveis, me pergunto: quanto eu contribuo de fato para quem me l\u00ea?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: small;\">Paloma Franca<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartas para algu\u00e9m? \u00a0 \u00a0 \u00a0 Quem vive a intermin\u00e1vel monotonia sente-se incapaz de mover-se. 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