O Parque Estadual Intervales é uma unidade de conservação localizada no sul do estado de São Paulo. Ele compõe a região central do Mosaico de Unidades de Conservação da Serra de Paranapiacaba, que conserva a maior área remanescente de Mata Atlântica do Brasil, com mais de 120 mil hectares de áreas protegidas.
Foi nessa região que a bióloga Mariana Morais Vidal estudou as interações entre aves e os frutos que elas consomem, promovendo assim a dispersão das sementes. Em sua tese de doutorado realizada no Instituto de Biociências da USP (IB), Mariana estudou a maneira como as interações entre espécies de aves frugívoras (que se alimentam de frutos) e as plantas são importantes para a conservação da vegetação.
A pesquisa usou a abordagem de redes complexas para descrever as interações entre aves e os frutos que elas consumiam. Desta maneira, foi possível estudar o sistema como um todo, considerando toda a comunidade e então caracterizar os padrões de interação, e identificar assim quais espécies de aves e de plantas interagiam mais ou menos entre si.
Um resultado dessa análise é a conclusão de que plantas com sementes pequenas e que possuem mais tempo com frutos maduros são mais importantes em organizar as redes de interação de que fazem parte, interagindo com um maior número de espécies de aves. Isso porque as sementes pequenas podem ser consumidas tanto por aves grandes quanto por aves pequenas e o maior tempo com frutos maduros aumenta a chance de os frutos serem consumidos por diferentes aves.
Através do cruzamento de dados sobre quais aves contribuíam mais para a organização das redes de interação, descobriu-se que as aves em maior risco de extinção eram as mais importantes em organizar as redes estudadas. Mariana identificou que as aves em risco mais alto de extinção, como o Araçari-banana e o Corocochó, tendem a ser mais importantes para a organização das redes de interação do que espécies de aves consideradas em situação menos preocupante segundo a IUCN (International Union for Conservation of Nature). “Essas espécies realizam muitas interações, pois dispersam sementes de muitas plantas diferentes. Elas também são importantes em conectar grupos distintos dentro da rede”, explica a bióloga. “Assim, a perda dessas espécies ameaça a integridade de toda a comunidade. Diversas plantas perderiam seus principais dispersores de sementes e a dinâmica de todo o sistema ficaria comprometida”, completa.
Mas não é somente nas espécies em maior risco de extinção que reside a importância da interação entre plantas e aves. As aves são um dos mais importantes agentes de dispersão de sementes, contribuindo para a dinâmica das populações de plantas e, portanto, para a sua conservação nos mais variados ecossistemas. Além de promoverem a persistência das populações dentro dos remanescentes de floresta, as aves contribuem para a disseminação de sementes para áreas desmatadas.
“Muitas vezes as práticas de conservação não levam em conta as interações entre espécies, limitando-se às listagens das espécies presentes na área de interesse”, comenta a bióloga. Para ela, é essencial preservar as espécies que correm risco de extinção. Porém, muitas vezes as interações são deixadas de lado. “A dispersão de sementes, junto com outros processos ecológicos, são importantes para a conservação dos ecossistemas”, explica.
“Por isso é essencial reconhecer a importância das interações ecológicas como processos que geram e mantêm a biodiversidade, devendo ser consideradas quando se pensa em estratégias de conservação”, completa. Ainda para a pesquisadora, este reconhecimento pode aumentar as chances de sucesso, a longo prazo, de práticas que visam a conservação dos ecossistemas.
A pesquisadora foi bolsista de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).